
terça-feira, 16 de junho de 2009
Composição Moral da Sociedade

Desviar a atenção para o outro para que não olhem para ti!
Deliramos descobrir erros alheios como se isso fosse uma forma de subir na vida, ou atingir um mestrado, ou o destaque do dia. Se os outros erram, sentimo-nos felizes porque não fomos nós e, pelos nossos erros ainda ninguém deu. Sentimos que cresceu o nosso ser... porque alguém falhou. O erro cometido por outrém, é a valorização dos restantes... Julgar o erro na praça pública traduz a emancipação do bem sobre o mal, os benfeitores unem-se e discutem que: ''nunca cometemos este erro, somos os bons!'', mas nos íntimos correm as ideias de que talvez o tenham feito, ou tenham pensado fazer, ou ajudaram algum a cometer esses mesmos erros, e piores, e piores. Mas é melhor chamar-lhes antes que nos chamem a nós.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Excerto da autobiografia de José Sócrates
A primeira vez que percebi que isto podia correr mal foi quando comecei a suar em bica no comício de Coimbra. Tinha saído do Falcon do Zapatero e estava enfiado numa sala miserável, meia vazia, com a temperatura de Tombuktu e o Vital a discursar.
À hora dos telejornais enfrentei as câmaras. O calor era insuportável. Havia ali equipamento de som e de luz capaz de assegurar uma tournée da Beyoncé. Ensaiei a piada sobre a falta de jeito da Ferreira Leite, mas vi logo, pelas palmas forçadas, que ninguém achou graça. Já não sei quem é que me disse que era bom atacá-la, por isso deve ter sido o Santos Silva.
Segui com o ataque àquela ideia absurda de que o país estava falido, despachei o discurso e saí dali com o José Luís, que ainda deve estar a pensar o que veio fazer a Portugal...
No dia seguinte, percebi que aquela coisa do Paulo Rangel andar a dizer que desperdiçámos fundos europeus passava o dia a ser repetida nas televisões. Já o Paulo Portas andava com essa, a atacar o Jaime Silva há mais de um ano. E os jornalistas achavam que deitávamos dinheiro à rua.
A verdade. diziam-me os meus assessores, é que não podia pôr o Jaime Silva a defender-se porque já não acreditavam nele. E parece que o Nunes Correia não se podia explicar porque ninguém sabia que ele era ministro! Quanto mais que era o ministro que geria os fundos...
Na campanha ainda me ri com aquela piada do Pinho sobre a papa Maizena. Mas saiu tudo em defesa do Rangel, o que foi injusto. Se calhar devia mesmo ter remodelado o Pinho no início do ano, mas as pessoas não se lembram que ele me ajudava desde os tempos da oposição.
Na campanha queriam o quê? Que mudasse o rumo e largasse o Aeroporto e o TGV? Nem pensar. Só se tivesse remodelado o Mário Lino. Perdoei-lhe a Ota porque um homem não deixa cair os amigos. Sobretudo os de longa data. O que ele me ajudou nos tempos do Ambiente...
Culparam o Vital, coitado. Atacar o Durão Barroso deve ter sido coisa da Ana Gomes, e a do BPN, qual foi o mal de trazer o caso BPN para a campanha?
Correu mal, o que foi duro para o PS e muito duro para mim. Não merecia. Comecei a campanha a suar em bica e acabei a ouvir o ministro da Cultura a dizer que o resultado era normal! O tipo andou calado um ano e abriu a boca para isto!
Tinham-me dito que ia ganhar com uma campanha à Obama. Mas ganhou o candidato que só fez reuniões tupperware. Aprendi uma lição para a vida: não serve de nada ter assessores que estudaram o Obama se nenhum souber ligar o ar condicionado.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Quando o futuro é tão incerto, resta o quê?
Ninguém, hoje, tem dúvidas de que vivemos numa sociedade potencialmente explosiva, onde múltiplas exclusões se agudizam a cada dia que passa. A instabilidade social parece ser o sentimento de quase todos, e, quando tudo treme, a possibilidade de toda a estrutura ruir é imensa, basta um mínimo deslize.
O nosso país está assim, o mundo todo está assim. Ninguém parece querer arriscar qualquer movimento e, neste impasse, quase se paralisa a economia e a vida das pessoas. Instala-se a crise. Contudo, estes problemas que tendem a desestruturar as sociedades não são um epifenómeno da crise actual, vêm de longe e vêem-se à vista desarmada. Alguns aspectos são de percepção comum: - A organização da própria sociedade. Os empregos mal remunerados, longe de casa e a muitas horas de distância, passadas em transportes públicos desconfortáveis e pouco eficientes, chegando, em hora de ponta, a ser desumanos.
Recentemente, foi noticiado que as creches que abrem e fecham a desoras, tipo 5/6 h da manhã e 8/9h da noite, têm cada vez maior procura. Isto terá inevitáveis reflexos na vida futura destas crianças e de suas famílias, espero que quem sabe do assunto – médicos, psicólogos, pedopsiquiatras… – digam alguma coisa, para ajudarem a ver o essencial. No mesmo sentido, a vida de tantas crianças, muito jovens ainda, de passe social ao pescoço, subindo e descendo autocarros, a caminho da escola, a maioria com chaves de casa no bolso, entregues a si próprias, tardes, manhãs ou dias inteiros.
- O modo como se vive e se constrói a cidadania. Os espaços públicos e de convivência não criam proximidade, a vida comunitária e associativa, onde se deveriam partilhar projectos e desenvolver interesses comuns, está longe de construir verdadeiras pertenças, familiaridades e cumplicidades, as quais, construídas na juventude, perdurariam pela vida fora. Talvez se creia que a Internet, onde, aparentemente, o debate e a partilha de interesses parecem sem limites, possa substituir a conversa na praça, o encontro na associação…, mas, temo que se venha a descobrir, mais tarde que cedo, que não é bem assim.Os bairros tornaram-se anónimos, descaracterizados e sem identidade. Cada vez mais, somos de lado nenhum, evitamos, até, dizer onde vivemos, e isso pode acontecer não apenas por se tratar de um bairro social mais ou menos problemático, mas simplesmente porque não temos nenhum sentimento de pertença ao local, e por isso dizemos: “vivo em Lisboa”, “vivo no Porto”, “vivo no Algarve”, etc. Sem nos darmos conta, vamos ficando sem raízes e cada vez mais sós. Na verdade, uma solidão crescente habita as ruas, mesmo que nelas caminhem multidões.
- A precariedade laboral e o desemprego. Há pessoas, anos a fio, em empregos instáveis, a recibos verdes, sem o mínimo de possibilidades de terem qualquer projecto de futuro, e muitas delas sem qualquer esperança de algum dia virem a ter um trabalho estável. Em consequência, surgem a desmotivação, a baixa auto-estima, a depressão, o desânimo…, e o efeito de bola de neve instala-se, tudo parece correr mal.
Em muitas zonas rurais do interior do país a produção agrícola tornou-se residual, restam alguns serviços e a saída para fora. A isto, junta-se o desemprego galopante dos últimos meses, a falência ou a deslocalização de muitas empresas, para o qual não se vê saída, com a consequente instabilidade pessoal, familiar e social.
- A corrupção e o tráfico de influências. Em regimes democráticos, num Estado de direito, com leis e instituições a regular a vida social, diríamos que até ao ínfimo pormenor, seria de supor que os fenómenos de corrupção fossem evitados à mínima tentação – que existe, obviamente. Mas não é assim, atingiu, entre nós, nalguns casos, um patamar inimaginável. É algo que repugna pelo que tem de “polvo”, de subterrâneo, de engano e de malfeitoria. Ver alguns daqueles banqueiros, que julgávamos gente séria, serem meros delinquentes; ver o tráfico de influências de políticos e outros poderosos – alguns saem do governo e vão para administradores de grandes empresas, com o maior dos à-vontades – é de uma gravidade incomensurável.
O cidadão honesto que cumpre com os seus impostos e paga com sacrifício as suas contas descrê de tudo. É a estrutura da própria sociedade que fica em perigo. Resta não descrer em absoluto na justiça e nas potencialidades da democracia.
Fonte: DN Opinião (por Maria Rosa Afonso - 08/06/09)
