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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

De onde vem a inteligência?

Para saber um pouco mais sobre a inteligência e quem sabe até... ficar mais inteligente.


A capacidade de raciocínio é um puzzle complexo que mistura componentes genéticos e o ambiente onde crescemos. Leia aqui as respostas às perguntas inteligentes.


Resolver uma equação. Compor uma sinfonia. Escrever um romance. Ganhar uma partida de xadrez. Inventar a cura para uma doença rara. O que têm todas estas situações em comum? São átomos de uma anatomia complexa: a inteligência. E, contudo, não me lembro da última vez que resolvi uma equação, não me sinto capaz de compor uma sinfonia, não me interesso pelo xadrez, sinto-me ainda longe de escrever um romance e muito mais ainda de encontrar a solução para uma doença rara. Nunca tinha pensado nisto desta forma e começo a ficar inquieto: serei menos inteligente do que pensava? Como podemos aferir a nossa inteligência?
Para responder a estas questões precisamos dissecar primeiro o conceito: o que significa, afinal, ser inteligente? O neuropsicólogo Nelson S. Lima, director do Instituto da Inteligência em Portugal, define a inteligência como "um conjunto complexo de habilidades mentais diferenciadas que permitem o saber pensar, fazer escolhas, decidir e agir com êxito nos desafios da vida". Ser inteligente, explica ao Expresso, é ter a capacidade de "enfrentar e resolver as exigências e problemas decorrentes da nossa interacção com os outros". Nesse sentido, mais do que falar em inteligência, faz sentido admitir a existência de diversos tipos de inteligência, como a inteligência social ou a inteligência lógico-matemática.
A associação da inteligência ao funcionamento do cérebro impõe uma outra questão: será a inteligência inata? "A participação dos genes na construção do sistema de nervoso, tal como acontece no resto do organismo, permite concluir que as estruturas cerebrais que estão envolvidas nas actividades do pensamento, da criatividade e da aprendizagem recebem uma forte influência genética", admite Lima.
Contudo, sozinhos, estes fundamentos biológicos não são suficientes para resolver o puzzle da inteligência. "É a interacção do indivíduo com o meio, de onde recebe uma enorme carga de estímulos, que vai decidir sobre a expansão e a funcionalidade dos recursos mentais que intervêm no exercício da inteligência", revela. Mais do que inata, a inteligência é, por isso, "educável". Desenvolve-se ao longo da vida através de várias actividades que a estimulam.
O genoma, o ambiente e a comida
Ainda que a alquimia da inteligência permaneça em grande parte um mistério, há dois ingredientes que sobressaem: a genética e o ambiente. Primeiro a biologia, depois a cultura ou a educação. "Os reflexos biológicos iniciais ganham um significado na interacção com o outro, sendo esse significado interiorizado e dando origem ao pensamento e à linguagem, duas das formas de expressão da inteligência", explica Leandro S. Almeida, psicólogo e autor de várias publicações e testes psicológicos na área da inteligência, aprendizagem e treino cognitivo.
"Qual das componentes é mais importante? É uma falsa questão", responde o biólogo da Universidade de Coimbra Hamilton Correia, que se tem dedicado ao estudo da inteligência e da sua importância na salvaguarda da espécie. "Se uniformizarmos os factores ambientais, então o que vai determinar a diferença de inteligência entre as pessoas é sobretudo o genoma. Se uniformizarmos a componente genética, então o que irá distinguir os indivíduos em relação à inteligência serão os factores ambientais". O biólogo dá um exemplo: "Imagine que existiam dez bebés clones, com a mesma constituição genética. A partir deles podemos 'criar' dez indivíduos com uma diferença abismal nos resultados dos testes de QI. Isto porque os factores ambientais variaram significativamente entre eles durante o desenvolvimento." Por exemplo, o tipo de alimentação durante os três primeiro anos de vida é fundamental para o "desenvolvimento da inteligência".
A importância da mãe
Muito menos consensual é a teoria do antigo inspector das escolas públicas britânicas Chris Woodhead, que no seu mais recente livro, "The Desolation of Learning" ("A Desolação da Aprendizagem", numa tradução literal), coloca todo o peso da balança da inteligência no comportamento dos genes. Segundo o autor, os rapazes e as raparigas tendem a ser mais inteligentes se forem filhos de professores, advogados ou académicos. Quem foi menos bafejado pela genética será pouco inteligente, mesmo que tenha a melhor educação do mundo. "Porque é que temos a pretensão de pensar que conseguimos tornar uma criança mais inteligente do que aquilo que Deus a fez?", perguntou durante uma entrevista ao diário britânico "The Guardian".
Ainda que o determinismo da polémica teoria de Woodhead esteja ultrapassado pelo compromisso que existe hoje na comunidade científica entre o papel do inato e do adquirido na inteligência, é inegável a influência da genética no desenvolvimento cognitivo e intelectual. "Parece existir um conjunto de genes directa ou indirectamente relacionados com algumas hormonas que funcionam como factores de crescimento e de desenvolvimento dos neurónios", revela Hamilton Correia. "A actuação destas hormonas, conhecidas como neuroesteróides, sobretudo durante a gestação e nos primeiros anos de vida, irá influenciar em grande medida a capacidade cognitiva dos indivíduos." O biólogo salienta ainda a existência de alguns genes relacionados com os neurotransmissores que influenciam a velocidade de transmissão do impulso nervoso e, consequentemente, "a rapidez de processamento de informação - uma das vertentes da inteligência".
Segundo Correia, a influência da hereditariedade na inteligência faz-se sentir sobretudo pelo lado da mãe. "A maioria dos genes descobertos que quando mutados dão origem a deficiências cognitivas encontram-se no cromossoma X. Por outro lado, existem algumas hormonas (sobretudo androgénios) que estimulam o crescimento e ramificação dos neurónios. Ora, o gene RA (gene do receptor dos androgénios) que se encontra no cromossoma X possui um efeito significativo na velocidade de transmissão neuronal e, portanto, na inteligência. Por esta razão, o sexo feminino é mais importante que o sexo masculino na transmissão da inteligência para a geração seguinte".
Este facto explica uma realidade que pode parecer surpreendente: segundo um estudo realizado pelo biólogo no Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, "os homens tendem a casar com alguém mais inteligente que eles, pois terão mais probabilidades de terem filhos inteligentes". Ainda que o façam inconscientemente, a inteligência acaba por ser um importante critério de selecção sexual na espécie humana.
Hamilton Correia acredita que os avanços no estudo dos genes ligados à inteligência poderão permitir estimular a expressão desses genes e, desse modo, influenciar positivamente o desenvolvimento cognitivo. "Existem algumas biomoléculas que podem potenciar significativamente a inteligência estimulando os factores de crescimento do tecido cerebral. Este fenómeno será tanto mais importante quanto mais precoce for em relação ao desenvolvimento do indivíduo." O investigador está já a estudar os efeitos de algumas dessas moléculas no aumento da inteligência humana, mas ainda não foram revelados os resultados."
O QI é um teste de burrice"
Mas o que faz ao certo uma pessoa mais inteligente que a outra? Como se faz essa avaliação? A ferramenta mais familiar são os testes que medem o quociente de inteligência (QI), mas mesmo estes não são consensuais. Mário Cordeiro, pediatra, pai de cinco filhos, consultor do Conselho Nacional de Educação, e autor de "O Grande Livro do Bebé", "O Livro da Criança" e "O Grande Livro do Adolescente", é feroz na crítica. "O QI é um teste de burrice... de quem o aplica pensando que está a avaliar alguma coisa. O 2+2, sozinho, não serve para nada. Daniel Goleman e António Damásio, entre outros, foram os que mais directamente mostraram a falência desse modelo e dessa forma de pensar."
Não há uma inteligência racional, sustenta Cordeiro. Há sim "capacidades várias de responder a situações novas, a problemas complexos, a questões nunca antes resolvidas". Uma inteligência com várias facetas ou, então, várias inteligências, diferentes peças nesse puzzle complexo que é a capacidade de resolução de problemas. A alquimia perfeita não inclui apenas a Razão, a informação, o conhecimento ou a lucidez. "É preciso também a Emoção, repleta de sentimentos, circunstâncias e contextos." A evidência, sublinha o pediatra, é óbvia: a maioria das situações que uma pessoa precisa de resolver ao longo da vida são "de natureza social, de cidadania, de respostas afectivas, de estratégias várias".
''Não há pessoas mais inteligentes"
Por isso, "não há pessoas mais inteligentes do que outras". Há sim pessoas que, por razões individuais, familiares, sociais ou de privilégios vários, tiveram a hipótese de desenvolver as várias facetas da sua inteligência. "Muitas crianças não têm essa hipótese, por razões familiares, desinteresse dos adultos, escolas abaixo de cão, professores doentiamente desinteressados (a não ser na questão da sua avaliação, o que já consumiu três anos lectivos) e um sistema de ensino caduco e ultrapassado com um ministério napoleónico quase patético." A estes factores acrescem as desigualdades sociais e económicas, "que são das maiores causas dessas diferenças".
Mais do que uma mera questão de QI, o insucesso escolar, alerta Cordeiro, é sobretudo um sintoma de disfunção na vida da criança, que pode começar logo na gestação. "Há factores, um dos quais a ingestão de álcool durante a gravidez, que podem causar dificuldades escolares". Outras causas, acrescenta o pediatra, incluem dormir mal, ter um ambiente desestabilizador em casa, ser pobre, ter frio, fome ou viver sem espaço vital habitacional.
"O que interessa é que todos temos talentos, capacidades, mais-valias, e que não é o QI que as mede, mas a assertividade, a resiliência, a força do querer, a vontade do aperfeiçoamento, a humildade de saber que não se sabe tudo mas que se pode saber um pouco mais, abrindo a porta também a mais ignorância que estimulará novas abordagens e pesquisas."
O neuropsicólogo Nelson Lima concorda. "Aquilo que faz uma criança revelar-se mais inteligente do que outra deve-se mais ao aproveitamento que saiba fazer dos seus recursos (capacidade de aprender, de motivar-se e de agir no e sobre o mundo) do que a mera exibição de raciocínios brilhantes."
Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Agosto de 2009

sábado, 16 de maio de 2009

O drama de ser padastro

O que é um padrasto? O pai de um filho que não é seu. O novo marido que a mãe escolheu. O homem que tem de gostar das crianças com quem vai viver e muitas vezes não pode viver com os seus próprios filhos


"Os homens não falam destas coisas". A afirmação é de um professor universitário de 53 anos, padrasto há oito e pai há 27. Jorge Lampreia faz parte de uma imensa multidão. Segundo José Gameiro, psiquiatra especializado em casais e novas famílias, 50% das famílias portuguesas passaram por uma separação conjugal. Muitas delas recompõem-se, dando origem a novos modelos parentais.

A grande questão para os padrastos é ter de lidar com uma realidade difícil: educar filhos que não são seus e, muitas vezes, ver os seus próprios filhos serem educados por outros homens. Embora digam que este não é um assunto de conversas masculinas, a verdade é que os três padrastos que o Expresso ouviu não tiveram pudor em falar, na primeira pessoa, da intimidade da sua relação com os enteados.

A importância deste grupo social é tal que começam a surgir estudos sobre a realidade dos padrastos portugueses. Até há algumas décadas, eles eram, na maioria, a consequência da morte do pai biológico. Uma figura distante que sustentava a família. "Era o padrinho ou o tio", como explica José Gameiro.

A novidade é que, desde os divórcios, os padrastos passaram a ter que competir com a imagem de um pai vivo. Qual é o papel do padrasto? Que espaço a mulher lhe reserva na família? A quem cabe manter a autoridade? Susana Atalaia, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, está a concluir um estudo sobre o lugar do padrasto no quotidiano familiar. "Os padrastos fazem depender os seus papéis da atitude do pai biológico. Se não houver concorrência, melhor", conclui o trabalho.

Tudo porque, quando não há laços biológicos que legitimem a relação, alguns homens sentem-se fragilizados na sua masculinidade. "A figura masculina está associada à autoridade, que, neste caso, é delegada", afirma Susana Atalaia. Conclusão confirmada pelos três padrastos retratados. José Gameiro reforça a tese. "A pior coisa que se pode dizer a um padrasto é: 'Não és meu pai'".

João Miguel, 50 anos, advogado

"Não sei explicar porque gostei deles, mas quando um homem quer conquistar uma mulher tem de conquistar os filhos. Fui padrasto aos 20 anos. A Catarina teria uns seis, o Ricardo, quatro.

Sempre reivindiquei a minha autoridade, mas é indispensável contar com a solidariedade feminina e a minha mulher acreditou em mim. Perceberam desde o início que a lógica da autoridade não é despida de sentimentos. Eu gostava deles, brincava, levava-os ao médico, acompanhava-os como qualquer pai.

Nos primeiros anos, os dias seguintes aos fins-de-semana com o pai eram terríveis. Era a guerra. Se o confronto se tivesse prolongado, não teria aguentado. A dada altura tive uma proposta para ir para o estrangeiro. Ponderámos também que seria uma boa maneira de termos um bocado de paz. Eles passaram a vir só no Verão.

Nunca me trataram por pai. Lembro-me de terem perguntado ao Ricardo, já adolescente, quem era o pai, e ele ter dado o meu nome. Tive algumas 'tricas' com a Catarina. Nunca houve rupturas.

Quando voltaram para Portugal, para estudar na universidade, houve uma reaproximação ao pai. Hoje fazem coisas juntos. Acho muito bem. Durante o crescimento tiveram o azar de não terem tido dois pais. Houve um padrasto presente e um pai ausente. Cometi a injustiça de os confrontar com isso.

Arrependo-me. Aquela frase: 'Se te chateia estar aqui podes ir viver com o teu pai', eu disse-a.

Quando a nossa filha nasceu, a relação não se alterou. Sempre tive o cuidado de ter com todos a mesma medida. Hoje, a Catarina já tem filhos. Tratam-me por avô. Digo que sou 'avô-afectivo'.

Não posso dizer que o amor que sinto pelos meus enteados é paternal. A relação de sangue marca, mas pode gostar-se de forma muito semelhante. Também não gostamos dos filhos biológicos da mesma maneira. Talvez de meu, tenham herdado boa parte dos valores, uma certa maneira de olhar a vida... Mas não têm o meu sangue. Isso nunca se poderá alterar. Tenho pena que não sejam meus filhos. Odeio a palavra padrasto."



Juntos desde que Flávia tem três anos, Jorge Cândido nunca ouviua frase-símbolo da relação entre padrastos e enteados: "Não és meu pai"

Expostos à partida, estes homens sabem que precisam entrar na relação conquistando a afeição dos enteados, o que nem sempre é fácil. "Há o mito da família unida - 'finalmente isto vai correr tudo muito bem' - e pensam logo uma coisa delirante que é: 'estes miúdos que não me conhecem de lado nenhum vão-me adorar'. E muitas vezes são postos no lugar pelos enteados", explica o psiquiatra. O mais ingrato desta situação dúbia é que o padrasto tem de gostar dos enteados, embora estes não tenham de gostar dele.

Um dos problemas enfrentados é que "há pouca história destas novas famílias e, por isso, não há ainda modelos alternativos disponíveis", diz Gameiro. Cabe assim às mulheres decidirem qual o espaço de actuação do padrasto. "Num primeiro tempo, ela aguenta. As relações são muito tensas no início. Depois elas têm de optar quem vão defender e defendem sempre os filhos. Há perigo de ruptura das relações conjugais", conclui.

Nestes contextos, a relação entre padrastos e enteados depende sempre de factores externos. Além da mãe, cabe sempre ao pai biológico determinar até onde o padrasto consegue ir. "A adaptação é mais fácil quando o lugar do pai biológico está vago, não há confronto. Mesmo que esteja vivo. Nestas situações, o padrasto assume-se e ocupa o espaço", afirma Susana Atalaia porque "mais do que ocupar um lugar deixado vago pelo pai, nos tempos que correm, o principal desafio lançado ao padrasto é o de construir o seu próprio lugar na nova família".

Jorge Cândido, 49 anos, empresário

Se a Flávia fosse minha filha biológica, teria sido tudo muito diferente. Tenho um filho de 26 anos. A Flávia tem quase 17 anos. Vive comigo desde os três. O pai dela sempre foi ausente. Nunca pagou a pensão e depois de ter tido outra filha afastou-se ainda mais. Às vezes ele telefona e ela pede-me para dizer que não está. Gostei de ter uma menina como enteada.

Trabalho muito, nunca janto em casa. Tenho uma pequena empresa de tratamento de águas. Gosto de jogar futebol e de beber umas cervejas com os amigos. Ela é mais parecida comigo do que o meu filho. Fala alto, não guarda nada. Pode ser da personalidade, mas também pode ser da convivência comigo.

Nunca dei uma palmada à Flávia nem ao meu filho. Sempre soube que seria uma pessoa estranha e fui entrando devagarinho. Ela nunca me rejeitou, mas houve alturas em que me senti posto de parte.

A frase 'você não é o meu pai' nunca me foi dita. A mãe da Flávia separou-se quando tinha 25 anos e assumiu a filha sozinha. Para ela, era um desafio provar que podia educar a miúda. O nível de vida delas não depende de mim. No Dia do Pai, a Flávia fazia sempre um presente para o pai e outro para mim. Depois deixou de fazer para o pai. Ainda hoje, não se esquece de pedir dinheiro à mãe para comprar uma prenda para mim. Ser padrasto é muito diferente de ser pai biológico. Gosto muito da Flávia, mas é diferente do que sinto pelo meu filho. Se calhar se tivesse ficado com ela quando era bebé... acho que mesmo assim seria diferente.

A Flávia tem muita cumplicidade com a mãe, mas muitas vezes é minha a palavra que conta sobre as saídas dela. A mãe diz: 'Vai falar com o pai'. Chama-me pai. Sempre fizemos tudo a três".



Jorge Lampreia no quarto das enteadas, que preferiram não se deixar fotografar. Este professor não consegue explicar o que é ser padrasto e diz que nunca tentou competir com o pai biológico

A nova tendência é que as famílias recompostas organizem o seu quotidiano entre duas casas. O modelo da guarda conjunta em regime de residência alternada, introduzido há três anos na legislação portuguesa, prevê que as crianças passem o mesmo tempo com o pai e com a mãe. Apesar de estes casos representarem ainda um número residual, nos últimos anos, esta prática tem vindo a ser cada vez mais experimentada, sobretudo nos meios urbanos.

A dificuldade, contudo, é que "se as coisas não estão bem conjugadas, pode criar-se uma dupla vida em que as mães se organizam com os seus filhos e o padrasto não interfere e, quando ficam sozinhos, vivem novamente uma situação de namoro", explica Gameiro. Susana Atalaia concorda: "Cria-se uma parentalidade paralela, em que a mãe assume sozinha as responsabilidades dos filhos ou, na melhor das hipóteses, reparte-as com os ex-companheiros".

Por resolver ainda está o aspecto legal que suporta a figura do padrasto. "A invisibilidade destas figuras parentais é uma realidade na generalidade dos países ocidentais. O sistema de parentesco ocidental apenas permite a existência de um pai e de uma mãe para cada criança", explica a investigadora do ICS. O padrasto é, assim, o elo mais fraco.

Também José Gameiro, pela sua prática de consultório, é a favor de uma alteração legislativa que reforce as garantias do padrasto. "Não sei como seria o modelo. Há padrastos que criaram aquelas crianças desde pequenos e, se ao fim de alguns anos se separam das mães, podem nunca mais voltar a vê-los". O psiquiatra diz, contudo, que quando pergunta aos padrastos se esta situação se colocasse se gostariam de voltar a encontrar regularmente os seus enteados a resposta é, em geral, "não".

Jorge Lampreia, 53 anos, professor universitário

"As minhas filhas foram apanhadas de surpresa pela separação. Um dia anunciei: 'amanhã saio de casa'. Foi em Abril de 2001. A Maria do Mar tinha 19 anos, a Violeta 16. Quase um ano depois, fui viver com a minha actual mulher, que tinha também duas filhas: a Maria Ana, com 10 anos e a Beatriz com seis. Houve três episódios difíceis com a minha enteada mais velha. Ela rejeitava-me, havia gritos e choro. A minha reacção foi sempre a mesma: sair de cena.

O que me deixa feliz é pensar que consegui com as minhas enteadas o mesmo que tinha conseguido com as minhas filhas: proporcionar-lhes uma ambiência solta e desanuviada. Gosto que tenham liberdade para se fechar no quarto ou verem o 'Conta-me como foi' em família, sem sentir que têm de cumprir papéis.

A minha enteada mais velha pergunta à minha filha Maria do Mar, porque é que gosta dela e da irmã. A minha filha responde que elas não têm culpa de nada e que, na separação, elas foram o que de mais positivo lhes aconteceu. Foi mais difícil estabelecerem laços com a minha mulher: a mais nova nem a cumprimentava, mas nas primeiras férias grandes, já estávamos todos juntos em Sesimbra.

Nunca ouvi a frase sacramental: 'não é o meu pai'. Mas, se me perguntam o que é ser padrasto, não sei responder. Nunca me passou pela cabeça entrar em discussões sobre quem é melhor pai, eu ou o biológico. Não tenho de substituir ninguém. Houve uma vez em que fui desautorizado pelo pai sobre uma decisão conjunta entre as duas famílias. Cheguei a ficar com febre. Avisei a minha enteada que não se podia repetir. Não se repetiu. Podia ter corrido mal. Fui duro com ela. Disse-lhe que nunca tinha passado por uma situação semelhante com as minhas filhas.

O quotidiano é feito de bom senso. É só olhar para elas e zzz, para um lado, zzz, para o outro e ir direccionando. Sou um homem de sorte. Não me esforço para que elas gostem de mim. Se hoje me separasse da minha actual mulher ia ter de encontrar uma forma de continuar a vê-las. Neste momento, a nossa relação é muito profunda".

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Maio de 2009